Dia de prova numa típica manhã africana. Calor e humidade potenciada por uma noite de pouco descanso.
Algures junto a um “musseque” da Samba sou alcançado por um atleta que vai sendo aplaudido por algumas dezenas de pessoas que se juntam nas margens.
Ficamos lado a lado. Mas a cada ajuntamento popular, mais aplausos e ele retribui através da generosidade de passadas mais aceleradas. Fico para trás. A cerca de 500 metros alcanço-o e desafiamo-nos para um sprint final. Deslizamos a grande velocidade para o fim. Cansados mas com o sorriso de quem cumpriu mais um desafio, selamos este desafio com um aperto de mão. Fico a saber o seu nome: Zé Dias. Corredor do Comité Paraolímpico Angolano.
O Dias corre por gosto. Mas também por necessidade. Naquele dia a prova não tinha qualquer prémio monetário e guardava as suas pernas para outros voos.
Não é pago pelo Comité que representa. Está desempregado. E depende de alguns prémios monetários pagos por algumas provas.
Sabia que me iria cruzar com o Dias de novo. E assim foi. Mantivemos contacto. E deu-se início à missão de equipar o Dias para que tenha as condições necessárias para atingir os seus objectivos.
A bondade, fraternidade, gosto de correr e vontade de conhecer novos limites são características que o Dias e o Wikaboo partilham, pelo que nada melhor do que esta camisola para começar.
Fiquem atentos aos Dias que se seguem!
E o nosso muito obrigado pelas dezenas de t-shirts até agora doadas pelo Wikaboo!
A noite caiu abruptamente sobre a cidade de Luanda. Saio do escritório desconfortável e irritado.
O João está animado. E acompanha com pancadas no volante o ritmo de um “pagode” que faz estremecer as colunas do frágil Hyundai Getz.
Estava cansado e irritado. Sem paciência. Amanhã teria que ser capaz de ouvir as músicas do João com outro espírito.
Decidi treinar então. O primeiro treino desde regresso a Luanda.
Antes de sair de casa lanço um olhar de soslaio sobre o debate parlamentar em Portugal sobre a causa das coisas.
Chego à rua e começo de imediato o treino. Não se pode dizer que tenha começado a frio, pois apesar de ser noite estão certamente 30º e uma humidade que torna o ar pesado e irrespirável.
O ponto de partida é o Bairro Azul que me faz lembrar um bairro de vivendas ali para os lados de Benfica em Lisboa. Casa sim, casa não, um segurança à porta sentado em banco de plástico branco encardido. Cumprimento alguns e todos, sem excepção, respondem com um “Ok! Obrigado!” ou “Obrigado Sinhor!”. Muitos têm uma telefonia sintonizada num jogo de futebol ou basquete. Outros, mais sofisticados, têm uma televisão apoiada em frágeis bancos de madeira.
Subo uma rua escura.
Alcanço a Cidade Alta, onde estão sedeadas as mais altas instâncias militares angolanas e o palácio presidencial para depois descer em direcção à marginal completamente vedada a transeuntes. Um longo período de obras devolverá a glória e beleza do lugar mais nobre de Luanda.
Estou a fazer uma missão de reconhecimento a Luanda e sinto-me meio perdido. Sem saber para onde ir. Acabo por optar pelo Estádio dos Coqueiros. Ao lado, um restaurante muito frequentado por portugueses. Na falta de um jogo de futebol, a TV sintonizava o deprimente espectáculo político. Já é tarde e à porta dois seguranças pedem-me (com razão) por um papel para poder entrar. Peço para facilitar e pago o valor normal de entrada (150 Kwanzas). Acabo por deixar um pouco mais para estimular o crescimento de uma rede de amigos com quem me vou cruzar nos próximos tempos. Os guardas radiantes com a oferta disseram-me para mencionar sempre os seus nomes deles quando ali regressar.
- “Armindo e Cabral! Mas sem dinheiro! Porque dinheiro estraga a amizade!” – refere um dos guardas com um sorriso rasgado.
Após uma dezena de voltas pela pista escura do estádio, despeço-me dos guardas e regresso a casa pelo mesmo caminho. Uma subida íngreme leva-me da baixa até à cidade alta.
Pelo caminho passo por alguns prédios em construção e outros novos que revolucionaram as linhas urbanas de Luanda. Alguns chamam-lhe sinais da modernidade. Outros uma disputa sobre quem tem o mais alto e luxuoso edifício de Luanda ou pura falta de bom gosto.
Dentro desta última categoria de opiniões, há um edifício que se destaca dos demais.
Construído em tempo record por chineses, este edifício de 29 andares destaca-se de noite pelas luzes “led” que cobrem toda a sua fachada projectando desenhos coloridos das mais diversas formas.
Continuo a subir e por entre estas nuvens de poeira, passo pela Assembleia Nacional de Angola. Luzes apagadas. Silêncio e dois guardas em modo “screensaver”. Tudo calmo e tranquilo.
Já em casa e depois do banho, ouvimos incrédulos às palavras de dor e consternação do José em versão pós-demissão. Vítima da conjuntura financeira internacional, dos especuladores, da oposição. Jamais dos seus próprios actos. O desconforto e a irritação regressaram de novo.
Manhã típica de “cacimbo”, o Inverno Angolano. Céu encoberto em tons de cinzento. Temperaturas que deveriam rondar os 25º e a humidade nos 70%.
Será o meu primeiro treino longo em Angola e é necessário munir-me de todos os acessórios para que este passeio não se faça somente de sofrimento.
E assim foi. 2 litros de água no “camel bag” e meio litro de Isostar. Óculos de sol, chapéu e protector solar.
Sem destino, início a minha corrida num tapete de terra vermelha em frente ao Restaurante Pirata, na Praia dos Sanganos.
O primeiro ponto de passagem é uma praia de pescadores. No momento algumas embarcações de pesca artesanal alcançavam terra firme e descarregavam o resultado de um trabalho provavelmente iniciado quando ainda não tinham rompido os primeiros raios de sol.
Os habitantes de Sanganos parecem viver essencialmente deste tipo de pesca, o que lhes proporciona pelo menos uma via de subsistência, ao contrário de muitos que vivem em Luanda e parecem não ter qualquer alternativa.
Percorri cerca de 1km. Precisava procurar outras rotas e começo a subir uma arriba íngreme. Nada agradável no início de um treino. Pelo caminho sou obrigado a perfurar algumas nuvens de poeira levantadas por automóveis transportando gente que, como eu, suspiram por cenários de quietude, longe do caos da cidade de Luanda.
No topo chego a um “musseque” amigável onde estão algumas crianças junto à estrada.
O lema do treino era “carpe via”. “Seize the road”! E não tanto o acumular de quilómetros nas pernas no mínimo tempo possível.
Imbuído desse espírito e fascinado pelos olhos bem abertos de crianças que me observavam com curiosidade não resisto em parar e trocar algumas palavras com elas.
Depois de terem sido feitas as apresentações e trocados alguns sorrisos começam a pedir-me de forma tímida:
“Dá bolacha!”
Como se pedissem um pequeno mimo. Uma extravagância.
Sem bolachas, acabo por despedir-me com a promessa de que iria voltar. Desta vez preparado para satisfazer o pedido tão simples que me havia sido feito.
Enquanto vou passando pelo “musseque”, algumas pessoas olham para mim com desconfiança. Mas um aceno, polegar para cima ou um “bom dia!” da minha parte é suficiente para quebrar o gelo e obter, sem qualquer excepção, uma saudação, um sorriso ou mesmo um gesticular mais frenético como quem quer transmitir uma espécie de energia.
Uma vez alcançada a estrada, encosto-me junto à berma do lado esquerdo e arranco em direcção a Cabo Ledo.
As rectas que percorro cortam uma paisagem repleta de pequenos arbustos e imbondeiros das mais diversas formas. Cada curva dobrada, cada final de uma subida desvendava uma nova recta com quilómetros de distância.
Cruzo-me com alguns veículos e imagino o que os condutores devem pensar desta imagem algo inverosímil. Já fiz aquela estrada muitas vezes e o máximo que vi foi um ciclista a pedalar com o seu carro de apoio. Ou então pessoas a viajar a pé. Mas alguém a correr sozinho… e com ar de quem se está a divertir por ali…
O calor aumenta à medida que vou deixando a praia nas minhas costas. O vento sopra de forma muito ligeira transformando-se momentaneamente em pequenas rajadas sempre que passam veículos pesados a alta velocidade.
Alguns automóveis fazem-me sinais de luzes, outros apitam. Todos os motociclistas saúdam-me. Talvez tenhamos uma maior empatia por partilhamos o prazer de estarmos a viver uma viagem ao ar livre naquele cenário.
Mais adiante vejo alguns sacos de pano colorido junto à estrada e que denunciavam a presença de alguém por perto. Uma senhora idosa que cumprimento do lado contrário da estrada. Acabei por ir ao seu encontro.
Cristina era o seu nome. As mãos e rosto cobertos de rugas indiciavam uma vida difícil e os olhos uma expressão cansada de quem já viu muito.
Enquanto aproveitava para beber água conversava com a Dona Cristina à sombra de um imbondeiro. Ela aguardava pacientemente por uma boleia. Sentada no chão e quase de costas para a estrada contou-me a história do filho que perdeu e do neto que estuda. Parece que estava ali há horas mas continuava serena. Em África espera-se muito. Tudo leva tempo.
Continuo a minha viagem. Na esperança de já não encontrar a Dona Cristina no meu retorno.
Avanço até alcançar uma placa que apontava para uma estrada de terra vermelha em direcção ao Santuário da Muxima. A estrada já não me poderia proporcionar outro tipo de paisagem nos quilómetros que se seguiam, pelo que optei por virar para este caminho.
O terreno era naturalmente mais macio. As paisagens mais áridas. O trânsito praticamente desapareceu.
Junto à estrada ficam algumas casas feitas de canas e com pequenas hortas à porta. Numa delas duas senhoras parecem moer farinha em torno de um pilão.
À margem da estrada um sinal vermelho e branco. Por momentos receei que pudesse ser um aviso de minas. O que não fazia sentido pois naquela estrada haviam marcas de pneus de automóveis e algumas pegadas.
Prossegui então. Mas pensei que aquele bem poderia ter sido um cenário de guerra há 10 anos atrás. E como a paz que se vive em Angola me concedia a liberdade de percorrer aquelas estradas sem qualquer restrição. Mas acima de tudo como a paz devolveu ao povo angolano alguma esperança.
Os sinais de qualquer presença humana tinham desaparecido por completo. Os campos vão ficando amplos e iluminados por uma luz fantástica. Paro uma vez mais à sombra de um imbondeiro que marca aproximadamente o meu ponto de retorno. Refresco-me e reponho algumas energias com uma barra de figos.
Estou atrasado para o almoço. Quero fazer um regresso mais rápido e concentro-me de forma a marcar uma passada constante.
Depois de voltar à estrada vejo uma carrinha Toyota Hiace pintada de azul e branco, vulgarmente designadas por carrinhas dos “candongueiros”, transporte público por excelência em Luanda e arredores. A carrinha vinha sobrelotada e buzinava de forma desafinada para mim. Diversos braços agitam-se fora das janelas! Momento simpático. Não sei se queriam saudar-me e dar-me uma força ou dizer-me que lá dentro não cabia absolutamente mais ninguém, pelo que deveria continuar a correr.
As temperaturas aumentaram para níveis desconfortáveis. O asfalto ferve e o sol brilha com maior intensidade. Os resquícios de uma manhã de cacimbo já tinham desaparecido mas não vou parar até chegar ao meu destino.
Até chegar a um pequeno estaleiro de obras já perto dos Sanganos. Ali um rapaz por quem tinha passado na ida chama por mim. Fui em direcção a ele e perguntou-me, com um rosto de preocupação, se eu estava à procura de alguém ou se estava perdido. Sorri e tentei explicar-lhe que fazia isto só porque gostava! Ainda que tenha ficado intrigado e não totalmente convencido, pareceu ter ficado mais descontraído e apresentou-se como sendo o Máquina. E voltou para a betoneira que não deixou de trabalhar.
De regresso ao restaurante Pirata, e enquanto tomava um banho no mar, senti-me plenamente realizado com a viagem que fiz. Porque viajar é isto. Percorrer um espaço repleto de cenários fantásticos e pessoas diferentes com quem podemos aprender sempre um pouco mais.
Dia de África em Angola. Aproveito a flexibilidade que um dia de feriado me dá para fazer um primeiro treino na Baía de Luanda.
Não foi uma estreia. Já havia corrido por ali em anos anteriores. Mas tenho sempre alguma curiosidade em notar as pequenas grandes diferenças que fazem com que Luanda comece a recuperar de décadas de estagnação. Uma rua alcatroada, um prédio novo, um buraco na estrada que deixou de existir ou um jardim recuperado.
Confesso que após ter estacionado junto ao Porto de Luanda estava à espera de encontrar uma marginal mais condicente com a beleza potencial desta Baía.
Ao invés, encontrei um cenário pior do que no ano passado.
Palmeiras despidas de folhas, passeios cobertos de terra que se levanta a cada sopro de vento, blocos de cimento do passeio levantados, autêntica crateras no circuito capazes de “engolir” parcialmente quem por ali passa, águas da baía que apresentam um aspecto espesso, manchadas por óleos e salpicadas por detritos de toda a espécie.
O dia está quente. 28 graus. A atmosfera não é agradável de se respirar. Mas este é o cenário com o qual me vou deparar nos próximos tempos. Por isso deixei-me de lamúrias e suspiros por cenários mais simpáticos e arranquei do Porto de Luanda em direcção ao ponto de retorno, marcado por uma bomba da Sonangol e as suas eternas filas de abastecimento.
Começo por tentar ambientar-me a este ar quente e húmido, bem característico de África.
Este calor como que envolve o nosso corpo dando uma sensação de grande conforto no dia-a-dia, mas não em particular quando se faz uma corrida.
Começo o treino numa passada lenta. E observar as paisagens recortadas por prédios enormes que nascem como cogumelos, os últimos modelos de jipes e SUV que aceleram pela marginal e algumas pessoas que passam por mim. Desde meninos que deambulam pela rua sem destino e de olhar vazio. Um par de “zungueiras” que carregam alguidares na cabeça e crianças nas costas, expatriados que pareciam ter ainda maior dificuldade a respirar aquele ar denso, um homem que dorme num banco e outro de roupas rasgadas e cobertas de pó que balbucia sons imperceptíveis sempre que passo por ele.
Luanda está calma. E imbuído dessa mesma calma e tranquilidade que caracteriza África termino o meu primeiro treino, com a certeza que ali vou regressar muitas vezes.
Noite
Concluir dias preenchidos de trabalho com treinos junto à Baía é o maior antídoto que encontrei para combater as rotinas diárias de Luanda e, claro, tentar segurar a condição física que fui adquirindo nos últimos meses.
Logo nos primeiros dias fiz algumas amizades com alguns frequentadores assíduos deste espaço. Companheiros de corrida para todos os ritmos.
Correr na Baía de Luanda ao início da noite revelou-se bem mais agradável do que fazê-lo durante o dia.
A começar pela temperatura que desce até cerca dos 20 graus. Bem como as ligeiras brisas que, quando não temos maré baixa, podem tornar-se realmente refrescantes.
Todo o tipo de gente percorre este passeio com cerca de 1,5 kms de cumprimento.
Diria mesmo que pode ser algo representativo das pessoas que hoje em dia vivem em Luanda. Desde de portugueses que se fazem ouvir pelo caminho, chineses que têm vindo a chegar em maior número a Angola, expatriados franceses e americanos que ostentam os seus ipod de forma ingénua, angolanos das mais diversas classes e raparigas simpáticas que nos dão algumas palavras de incentivo e coragem, sempre bem-vindas.
Pelo caminho também encontro alguns grupos de ginástica que, segundo me dizem, se juntam de espontaneamente e de forma regular.
Sente-se uma boa vibração entre as pessoas que por ali circulam. E o tempo passa depressa à conversa com meus companheiros.
O pior chega nos dias em que a maré está baixa. Como numa Sexta-feira em que a Baía estava com menos gente do que é costume e aproveitei para fazer um treino de maior velocidade para as pernas não se esquecerem.
O circuito tinha sido tomado por um cheiro absolutamente nauseabundo para o qual muito contribui os esgotos que devem ali desaguar sem qualquer tratamento.
A iluminação também era deficiente, resultado das obras que por ali vão começar, segundo dizem.
Ao acelerar numa recta e motivado por momentos antes me ter cruzado e saudar uma velha glória do atletismo português que treina regularmente na Baía, sinto um impacto em algo macio que acaba por rolar cerca de um metro para a minha frente e fugir para a minha direita.
Tinha acabado de abalroar uma ratazana que tinha saltado da Baía. Naturalmente não me preocupei com a condição do animal. Fui simplesmente tomado por um sentimento de repugnância que me fez correr ainda mais depressa.
Pensei que aquela seria a minha última corrida na Baía. Mas depois recordei-me que também no Estádio Universitário (onde treino a maior parte da vezes em Lisboa) também já me tinha cruzado ratazanas, cheira mal quando estão a fertilizar os campos e a iluminação à noite é igualmente deficiente.
Decidi dar nova oportunidade e continuei por ali a correr naquele dia e nos seguintes.
Um dia sei que este lugar vai ser melhor, tal é o potencial evidente deste local. Nessa altura vou-me rir daquilo que foi a Baía de Luanda, outrora em vias de abandono.