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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Zé Dias

Zé Dias, novo Wikaboo

Zé Dias e o seu primo Ivo.

Novembro de 2011

Dia de prova numa típica manhã africana. Calor e humidade potenciada por uma noite de pouco descanso.


Algures junto a um “musseque” da Samba sou alcançado por um atleta que vai sendo aplaudido por algumas dezenas de pessoas que se juntam nas margens.

Ficamos lado a lado. Mas a cada ajuntamento popular, mais aplausos e ele retribui através da generosidade de passadas mais aceleradas. Fico para trás. A cerca de 500 metros alcanço-o e desafiamo-nos para um sprint final. Deslizamos a grande velocidade para o fim. Cansados mas com o sorriso de quem cumpriu mais um desafio, selamos este desafio com um aperto de mão. Fico a saber o seu nome: Zé Dias. Corredor do Comité Paraolímpico Angolano.

O Dias corre por gosto. Mas também por necessidade. Naquele dia a prova não tinha qualquer prémio monetário e guardava as suas pernas para outros voos.

Não é pago pelo Comité que representa. Está desempregado. E depende de alguns prémios monetários pagos por algumas provas.

Sabia que me iria cruzar com o Dias de novo. E assim foi. Mantivemos contacto. E deu-se início à missão de equipar o Dias para que tenha as condições necessárias para atingir os seus objectivos.

A bondade, fraternidade, gosto de correr e vontade de conhecer novos limites são características que o Dias e o Wikaboo partilham, pelo que nada melhor do que esta camisola para começar.

Fiquem atentos aos Dias que se seguem!

E o nosso muito obrigado pelas dezenas de t-shirts até agora doadas pelo Wikaboo!

Adiram à página no Facebook "T-shirts com bolachas"

domingo, 22 de janeiro de 2012

Maratona de Nova Iorque - de Queens ao Central Park


Passagem tranquila à meia-maratona

1st Avenue em Manhattan. Corríamos em direcção ao Bronx.

À procura da miúda do KM 30

Já em pleno Central Park. Faltavam 2 Kms. Que mais pareciam ser 10.


Enfim.. a chegada!
 Nova Iorque, 6 de Novembro de 2011


Brooklyn fica para trás. Habituado a tamanha injecção de energia do público, receio não sentir o mesmo apoio quando os meus limites começarem a manifestar-se.

Concluída a meia-maratona entramos na Ponte Pulaski e chegamos a Queens.

O traçado é irregular e por vezes remendado com alcatrão fresco que deverá ter evitado alguns acidentes entre os participantes.

Antes de entrarmos em Manhattan (quilómetro 25), o primeiro grande teste. A Ponte de Queensboro que atravessa a Ilha de Roosevelt. Escura. Fria. Vento lateral. Sem público. Para começar uma subida acentuada superior a um quilómetro. Alguns corredores cedem e começam a marchar. Um vomita compulsivamente à margem. O silêncio na ponte só é cortado a respiração mais ofegante de alguns participantes. “Respect the bridges!”, foi um dos conselhos que recebi antes da prova. Percebia agora o porquê. No final da ponte uma descida acentuada. Mas a moral do pelotão não aumentava.

Pela primeira vez senti-me invadido por algum pessimismo. Veio-me à memória o “Muro de Roterdão” e o facto de já não estar longe do fatídico quilómetro 32. Mas este sentimento foi prontamente amenizado por uma calorosa recepção à saída da ponte e no início do percurso da 1ª Avenida.

Era notório o alívio de certos corredores. Alguns abriam os braços. Outros gritavam e pediam o apoio do público que acedia imediatamente. A alegria por sairmos da Ponte de Queensboro e reencontrarmos os nova-iorquinos era enorme.

Outra vez milhares de pessoas prestavam homenagem aos corredores na longa e larga 1ª Avenida. A tranquilidade daquela zona no dia anterior não deixava antever uma manhã de Domingo de loucura.

Perto do quilómetro 30 o momento que vale mais do que qualquer fonte de energia. Uma miúda vestida de preto que a muito custo consigo descobrir no meio da multidão. Protegida do frio, o seu sorriso inspira-me e enche-me de força para enfrentar os próximos quilómetros, ainda que as pernas começassem a ceder. O momento é efémero mas reconfortante.

Nova ponte. Nova subida. E o famoso bairro do Bronx. A receber-nos um rapper improvisa palavras de incentivo com uma batida hip hop de fundo. “Put your hands in the air! Yo! Yo!”. Mas os maratonistas, que outrora vi a coreografarem o “YMCA” algures em Brooklyn, concentravam agora todas as suas forças nos últimos quilómetros da prova. Levar os braços ao alto parecia um enorme dispêndio de energia naquela altura.

Já em Harlem, entrámos na 5ª Avenida e com ela uma subida que não estava nos planos. O batimento cardíaco sobe. O cansaço apodera-se definitivamente de mim. Começo a sentir cãibras nos braços e uma bolha na planta no pé direito.

Quilómetro 38. O ponto de exaustão parece estar próximo. Procuro a rapariga do quilómetro 30. Teria sido o tónico perfeito para os quilómetros finais. Mas por mais que procure não consigo avistá-la por entre uma densa multidão.

Começo a largar por terra todos os acessórios que entretanto deixaram de fazer sentido. O cinto do gel, luvas, mangas térmicas.

O público que preenche as margens do percurso no Central Park insiste em relembrar que estamos próximos do final. No rosto destas pessoas procuro algum conforto para não ceder à tentação do corpo e reduzir o ritmo da passada.

Penso nas centenas de quilómetros que percorri até aqui chegar. Nos conselhos que recebi. Nas sessões de fisioterapia. Nos treinos com 30 graus e humidade nos 70%. Nos jantares que faltei. Nas noites que não pude acompanhar. Naqueles que tanto apoio me deram.

E recuso para mim mesmo que naquele momento tenha alcançado o meu limite. E consigo redescobrir-me.

De uma ligeira frustração por não ter cumprido o objectivo de tempo a que me tinha proposto, nasce uma enorme satisfação por conseguir dominar a mente que lutava contra os pedidos de clemência do corpo.

E é com este sentimento que alcanço a linha de chegada. No final as pernas tremem e parecem querer ceder. Sou rapidamente amparado por um voluntário que de sorriso rasgado dá-me os parabéns e embrulha-me numa manta térmica.

Passo por dezenas de voluntários vestidos de laranja que aplaudem sem parar e congratulam todos os corredores que chegam exaustos mas de rosto iluminado.

Diz o meu treinador e mentor desportivo que “a mais importante das maratonas é a da vida”. Após trocar de roupa caminho lentamente para novo ponto de encontro. Pelo meio um telefonema para os meus pais aquece-me a alma naquela manhã fria de Outono. Chegado ao Lincoln Center, em frente ao Metropolitan Opera e aos painéis de Chagall, uma troca de sorrisos. E sem qualquer palavra, um abraço com forças que julgava terem ficado para trás. Estava selada mais uma maratona.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Maratona de Nova Iorque - de Staten Island a Brooklyn


Hino entoado por uma oficial do NYFD. Ao lado Michael Bloomberg, Mayor de NY (foto da organização)
 
Entrada para a Ponte de Verrazano Narrows (foto da organização)


Coro de Gospel de uma Igreja Evangélica de Brooklyn (foto da organização)


Apoio em Brooklyn (foto da organização)

6 de Novembro de 2011

8.50 da manhã em Staten Island. O primeiro de três conjuntos de corredores marcha em direcção à linha de partida. Para além dos anfitriões norte americanos, num raio de 5 metros vejo mexicanos, italianos, brasileiros e noruegueses.
Olhares tensos que certamente não serão um exclusivo dos debutantes na distância. Como me foi dito um dia por um dos corredores que viria a brilhar nesta Maratona – António Sousa, vencedor da categoria de Veteranos e 22º classificado na Geral –, os 42,195 kms escondem sempre alguma incerteza. Algo que não controlamos, ainda que tenhamos trabalhado arduamente nos meses anteriores.

Alongam-se os últimos músculos, espalham-se os últimos cremes anti-inflamatórios, rezam-se as últimas preces e percorrem-se listas de “do’s” e “dont’s” pela enésima vez.

Ao lado, filas de autocarros de topo aberto são populados por crianças entusiastas que pedem as roupas que protegem os corredores daquela manhã fria de Outono, no âmbito do programa de recolha de roupa para os sem-abrigo de Nova Iorque. Lembro-me das “t-shirts coloridas” que tenho para distribuir em Luanda. A minha última peça de roupa extra é arremessada para o autocarro. A descoberto fica a minha t-shirt Wikaboo que orgulhosamente envergo e que me acompanhou em centenas de quilómetros de treinos em manhãs quentes e húmidas de Angola.

O speaker pede que se faça silêncio e se tirem os chapéus. Vai ser entoado o hino dos EUA por um membro de uma corporação de bombeiros de Nova Iorque, os quais sofreram baixas massivas no 11 de Setembro. Sem excepção, a multidão de corredores acede ao pedido e faz-se silêncio. Algumas mãos são levadas ao peito. Eu aproveito para erguer a cabeça e deixar-me iluminar pelo sol que vai rompendo o céu azul e ameniza a manhã fria. É o meu último momento de concentração. Chegou o momento de me redescobrir física e mentalmente.

A marcar o tiro de partida, canta-se o clássico “New York, New York” do Frank Sinatra, para delírio dos milhares de corredores:

“Start spreading the news
I’m leaving today
I want to be a part of it
New York, New York...”

As primeiras centenas de metros são percorridas numa subida íngreme já em plena Ponte de Verrazano Narrows. Alguns param para tirar fotos. Outros, como eu, tentam rapidamente entrar na passada planeada, a qual consegui atingir após o primeiro quilómetro.

No final da ponte uma placa oficial diz “Welcome to Brooklyn USA”. Um dos corredores repete em voz alta esta frase para os primeiros populares que se aglomeravam junto à saída da ponte. Em uníssono estes respondem em êxtase e com orgulho “Yeahhh!!!”.

Esta primeira manifestação marcou o início de uma das manifestações populares mais impressionantes que tive oportunidade de viver.

Li algures na semana anterior uma frase:

“If you are losing faith in human nature, go and watch a marathon” – Kathrine Switzer

Eu acrescentaria, que se veja uma maratona em geral e em particular a Maratona de Nova Iorque em Brooklyn.

47.438 corredores de 118 nacionalidades invadiam as principais artérias de Brooklyn. As margens estão completamente preenchidas formando um corredor humano por entre o qual percorremos até Queens. Difícil vislumbrar uma clareira por entre esta moldura impressionante.

Bandeiras ao alto dão um colorido especial ao nosso percurso e simbolizam a multiplicidade de nacionalidades que povoam aquele distrito nova-iorquino. O apoio ultrapassa largamente as tradicionais palmas. E são constantemente lançadas ao ar palavras de apoio em inglês e espanhol. Centenas de placas dão-nos um precioso incentivo: “Go runners!”, “Do some epic shit!”, “Don’t stop, people are watching!”.

A organização espalhou dezenas de pontos de animação pelo percurso. Mas Brooklyn quis exceder as expectativas. E abriram-se portas e janelas de onde saiam colunas com músicas do mundo. DJ’s que improvisaram pequenos pontos de exibição. Alguns aspirantes a estrelas pop com trejeitos de Jeniffer Lopez e Jay Z soltam versos improvisados de incentivo. Coros de Gospel de igrejas evangélicas celebram as suas missas dominicais nas ruas por onde passávamos transmitindo uma energia vibrante. Nos palcos da organização alinham grupos de rock, folk, country e capoeira.

Tudo é arrepiante, vibrante, perfeito. Afinal a maratona ainda vai nos primeiros quilómetros, o corpo ainda não nos pede clemência e à volta vive-se uma incrível demonstração de humanidade a que ninguém pode ficar indiferente.

Pessoas de todas as raças, credos, países e orientações correm e apoiam com um solo objectivo, chegar ao Central Park. E não posso deixar de pensar que Maratona de Nova Iorque poderia bem representar uma metáfora de um Mundo Utópico. Onde toda a Humanidade luta e apoia-se mutuamente em nome de objectivos comuns, sem que com isso cada individuo tenha que abdicar da sua identidade.

terça-feira, 26 de abril de 2011

João, Armindo, Cabral e José

Estádio dos Coqueiros de dia






O genial (?) Edíficio CIF




Luanda, Março de 2011

A noite caiu abruptamente sobre a cidade de Luanda. Saio do escritório desconfortável e irritado.

O João está animado. E acompanha com pancadas no volante o ritmo de um “pagode” que faz estremecer as colunas do frágil Hyundai Getz.

Estava cansado e irritado. Sem paciência. Amanhã teria que ser capaz de ouvir as músicas do João com outro espírito.

Decidi treinar então. O primeiro treino desde regresso a Luanda.

Antes de sair de casa lanço um olhar de soslaio sobre o debate parlamentar em Portugal sobre a causa das coisas.

Chego à rua e começo de imediato o treino. Não se pode dizer que tenha começado a frio, pois apesar de ser noite estão certamente 30º e uma humidade que torna o ar pesado e irrespirável.

O ponto de partida é o Bairro Azul que me faz lembrar um bairro de vivendas ali para os lados de Benfica em Lisboa. Casa sim, casa não, um segurança à porta sentado em banco de plástico branco encardido. Cumprimento alguns e todos, sem excepção, respondem com um “Ok! Obrigado!” ou “Obrigado Sinhor!”. Muitos têm uma telefonia sintonizada num jogo de futebol ou basquete. Outros, mais sofisticados, têm uma televisão apoiada em frágeis bancos de madeira.

Subo uma rua escura.

Alcanço a Cidade Alta, onde estão sedeadas as mais altas instâncias militares angolanas e o palácio presidencial para depois descer em direcção à marginal completamente vedada a transeuntes. Um longo período de obras devolverá a glória e beleza do lugar mais nobre de Luanda.

Estou a fazer uma missão de reconhecimento a Luanda e sinto-me meio perdido. Sem saber para onde ir. Acabo por optar pelo Estádio dos Coqueiros. Ao lado, um restaurante muito frequentado por portugueses. Na falta de um jogo de futebol, a TV sintonizava o deprimente espectáculo político. Já é tarde e à porta dois seguranças pedem-me (com razão) por um papel para poder entrar. Peço para facilitar e pago o valor normal de entrada (150 Kwanzas). Acabo por deixar um pouco mais para estimular o crescimento de uma rede de amigos com quem me vou cruzar nos próximos tempos. Os guardas radiantes com a oferta disseram-me para mencionar sempre os seus nomes deles quando ali regressar.

- “Armindo e Cabral! Mas sem dinheiro! Porque dinheiro estraga a amizade!” – refere um dos guardas com um sorriso rasgado.

Após uma dezena de voltas pela pista escura do estádio, despeço-me dos guardas e regresso a casa pelo mesmo caminho. Uma subida íngreme leva-me da baixa até à cidade alta.

Pelo caminho passo por alguns prédios em construção e outros novos que revolucionaram as linhas urbanas de Luanda. Alguns chamam-lhe sinais da modernidade. Outros uma disputa sobre quem tem o mais alto e luxuoso edifício de Luanda ou pura falta de bom gosto.

Dentro desta última categoria de opiniões, há um edifício que se destaca dos demais.

Construído em tempo record por chineses, este edifício de 29 andares destaca-se de noite pelas luzes “led” que cobrem toda a sua fachada projectando desenhos coloridos das mais diversas formas.

Continuo a subir e por entre estas nuvens de poeira, passo pela Assembleia Nacional de Angola. Luzes apagadas. Silêncio e dois guardas em modo “screensaver”. Tudo calmo e tranquilo.

Já em casa e depois do banho, ouvimos incrédulos às palavras de dor e consternação do José em versão pós-demissão. Vítima da conjuntura financeira internacional, dos especuladores, da oposição. Jamais dos seus próprios actos. O desconforto e a irritação regressaram de novo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Angola oi qu’povo sabe



















Algures entre Sanganos e Cabo Ledo, Junho de 2010

Manhã típica de “cacimbo”, o Inverno Angolano. Céu encoberto em tons de cinzento. Temperaturas que deveriam rondar os 25º e a humidade nos 70%.

Será o meu primeiro treino longo em Angola e é necessário munir-me de todos os acessórios para que este passeio não se faça somente de sofrimento.

E assim foi. 2 litros de água no “camel bag” e meio litro de Isostar. Óculos de sol, chapéu e protector solar.

Sem destino, início a minha corrida num tapete de terra vermelha em frente ao Restaurante Pirata, na Praia dos Sanganos.

O primeiro ponto de passagem é uma praia de pescadores. No momento algumas embarcações de pesca artesanal alcançavam terra firme e descarregavam o resultado de um trabalho provavelmente iniciado quando ainda não tinham rompido os primeiros raios de sol.

Os habitantes de Sanganos parecem viver essencialmente deste tipo de pesca, o que lhes proporciona pelo menos uma via de subsistência, ao contrário de muitos que vivem em Luanda e parecem não ter qualquer alternativa.

Percorri cerca de 1km. Precisava procurar outras rotas e começo a subir uma arriba íngreme. Nada agradável no início de um treino. Pelo caminho sou obrigado a perfurar algumas nuvens de poeira levantadas por automóveis transportando gente que, como eu, suspiram por cenários de quietude, longe do caos da cidade de Luanda.

No topo chego a um “musseque” amigável onde estão algumas crianças junto à estrada.

O lema do treino era “carpe via”. “Seize the road”! E não tanto o acumular de quilómetros nas pernas no mínimo tempo possível.

Imbuído desse espírito e fascinado pelos olhos bem abertos de crianças que me observavam com curiosidade não resisto em parar e trocar algumas palavras com elas.

Depois de terem sido feitas as apresentações e trocados alguns sorrisos começam a pedir-me de forma tímida:

“Dá bolacha!”

Como se pedissem um pequeno mimo. Uma extravagância.

Sem bolachas, acabo por despedir-me com a promessa de que iria voltar. Desta vez preparado para satisfazer o pedido tão simples que me havia sido feito.

Enquanto vou passando pelo “musseque”, algumas pessoas olham para mim com desconfiança. Mas um aceno, polegar para cima ou um “bom dia!” da minha parte é suficiente para quebrar o gelo e obter, sem qualquer excepção, uma saudação, um sorriso ou mesmo um gesticular mais frenético como quem quer transmitir uma espécie de energia.

Uma vez alcançada a estrada, encosto-me junto à berma do lado esquerdo e arranco em direcção a Cabo Ledo.

As rectas que percorro cortam uma paisagem repleta de pequenos arbustos e imbondeiros das mais diversas formas. Cada curva dobrada, cada final de uma subida desvendava uma nova recta com quilómetros de distância.

Cruzo-me com alguns veículos e imagino o que os condutores devem pensar desta imagem algo inverosímil. Já fiz aquela estrada muitas vezes e o máximo que vi foi um ciclista a pedalar com o seu carro de apoio. Ou então pessoas a viajar a pé. Mas alguém a correr sozinho… e com ar de quem se está a divertir por ali…

O calor aumenta à medida que vou deixando a praia nas minhas costas. O vento sopra de forma muito ligeira transformando-se momentaneamente em pequenas rajadas sempre que passam veículos pesados a alta velocidade.

Alguns automóveis fazem-me sinais de luzes, outros apitam. Todos os motociclistas saúdam-me. Talvez tenhamos uma maior empatia por partilhamos o prazer de estarmos a viver uma viagem ao ar livre naquele cenário.

Mais adiante vejo alguns sacos de pano colorido junto à estrada e que denunciavam a presença de alguém por perto. Uma senhora idosa que cumprimento do lado contrário da estrada. Acabei por ir ao seu encontro.

Cristina era o seu nome. As mãos e rosto cobertos de rugas indiciavam uma vida difícil e os olhos uma expressão cansada de quem já viu muito.

Enquanto aproveitava para beber água conversava com a Dona Cristina à sombra de um imbondeiro. Ela aguardava pacientemente por uma boleia. Sentada no chão e quase de costas para a estrada contou-me a história do filho que perdeu e do neto que estuda. Parece que estava ali há horas mas continuava serena. Em África espera-se muito. Tudo leva tempo.

Continuo a minha viagem. Na esperança de já não encontrar a Dona Cristina no meu retorno.

Avanço até alcançar uma placa que apontava para uma estrada de terra vermelha em direcção ao Santuário da Muxima. A estrada já não me poderia proporcionar outro tipo de paisagem nos quilómetros que se seguiam, pelo que optei por virar para este caminho.

O terreno era naturalmente mais macio. As paisagens mais áridas. O trânsito praticamente desapareceu.

Junto à estrada ficam algumas casas feitas de canas e com pequenas hortas à porta. Numa delas duas senhoras parecem moer farinha em torno de um pilão.

À margem da estrada um sinal vermelho e branco. Por momentos receei que pudesse ser um aviso de minas. O que não fazia sentido pois naquela estrada haviam marcas de pneus de automóveis e algumas pegadas.

Prossegui então. Mas pensei que aquele bem poderia ter sido um cenário de guerra há 10 anos atrás. E como a paz que se vive em Angola me concedia a liberdade de percorrer aquelas estradas sem qualquer restrição. Mas acima de tudo como a paz devolveu ao povo angolano alguma esperança.

Os sinais de qualquer presença humana tinham desaparecido por completo. Os campos vão ficando amplos e iluminados por uma luz fantástica. Paro uma vez mais à sombra de um imbondeiro que marca aproximadamente o meu ponto de retorno. Refresco-me e reponho algumas energias com uma barra de figos.

Estou atrasado para o almoço. Quero fazer um regresso mais rápido e concentro-me de forma a marcar uma passada constante.

Depois de voltar à estrada vejo uma carrinha Toyota Hiace pintada de azul e branco, vulgarmente designadas por carrinhas dos “candongueiros”, transporte público por excelência em Luanda e arredores. A carrinha vinha sobrelotada e buzinava de forma desafinada para mim. Diversos braços agitam-se fora das janelas! Momento simpático. Não sei se queriam saudar-me e dar-me uma força ou dizer-me que lá dentro não cabia absolutamente mais ninguém, pelo que deveria continuar a correr.

As temperaturas aumentaram para níveis desconfortáveis. O asfalto ferve e o sol brilha com maior intensidade. Os resquícios de uma manhã de cacimbo já tinham desaparecido mas não vou parar até chegar ao meu destino.

Até chegar a um pequeno estaleiro de obras já perto dos Sanganos. Ali um rapaz por quem tinha passado na ida chama por mim. Fui em direcção a ele e perguntou-me, com um rosto de preocupação, se eu estava à procura de alguém ou se estava perdido. Sorri e tentei explicar-lhe que fazia isto só porque gostava! Ainda que tenha ficado intrigado e não totalmente convencido, pareceu ter ficado mais descontraído e apresentou-se como sendo o Máquina. E voltou para a betoneira que não deixou de trabalhar.

De regresso ao restaurante Pirata, e enquanto tomava um banho no mar, senti-me plenamente realizado com a viagem que fiz. Porque viajar é isto. Percorrer um espaço repleto de cenários fantásticos e pessoas diferentes com quem podemos aprender sempre um pouco mais.

sábado, 19 de junho de 2010

Contrastes na Baía de Luanda









Luanda, Maio/Junho de 2010

Dia

Dia de África em Angola. Aproveito a flexibilidade que um dia de feriado me dá para fazer um primeiro treino na Baía de Luanda.

Não foi uma estreia. Já havia corrido por ali em anos anteriores. Mas tenho sempre alguma curiosidade em notar as pequenas grandes diferenças que fazem com que Luanda comece a recuperar de décadas de estagnação. Uma rua alcatroada, um prédio novo, um buraco na estrada que deixou de existir ou um jardim recuperado.

Confesso que após ter estacionado junto ao Porto de Luanda estava à espera de encontrar uma marginal mais condicente com a beleza potencial desta Baía.

Ao invés, encontrei um cenário pior do que no ano passado.

Palmeiras despidas de folhas, passeios cobertos de terra que se levanta a cada sopro de vento, blocos de cimento do passeio levantados, autêntica crateras no circuito capazes de “engolir” parcialmente quem por ali passa, águas da baía que apresentam um aspecto espesso, manchadas por óleos e salpicadas por detritos de toda a espécie.

O dia está quente. 28 graus. A atmosfera não é agradável de se respirar. Mas este é o cenário com o qual me vou deparar nos próximos tempos. Por isso deixei-me de lamúrias e suspiros por cenários mais simpáticos e arranquei do Porto de Luanda em direcção ao ponto de retorno, marcado por uma bomba da Sonangol e as suas eternas filas de abastecimento.

Começo por tentar ambientar-me a este ar quente e húmido, bem característico de África.

Este calor como que envolve o nosso corpo dando uma sensação de grande conforto no dia-a-dia, mas não em particular quando se faz uma corrida.

Começo o treino numa passada lenta. E observar as paisagens recortadas por prédios enormes que nascem como cogumelos, os últimos modelos de jipes e SUV que aceleram pela marginal e algumas pessoas que passam por mim. Desde meninos que deambulam pela rua sem destino e de olhar vazio. Um par de “zungueiras” que carregam alguidares na cabeça e crianças nas costas, expatriados que pareciam ter ainda maior dificuldade a respirar aquele ar denso, um homem que dorme num banco e outro de roupas rasgadas e cobertas de pó que balbucia sons imperceptíveis sempre que passo por ele.

Luanda está calma. E imbuído dessa mesma calma e tranquilidade que caracteriza África termino o meu primeiro treino, com a certeza que ali vou regressar muitas vezes.

Noite

Concluir dias preenchidos de trabalho com treinos junto à Baía é o maior antídoto que encontrei para combater as rotinas diárias de Luanda e, claro, tentar segurar a condição física que fui adquirindo nos últimos meses.

Logo nos primeiros dias fiz algumas amizades com alguns frequentadores assíduos deste espaço. Companheiros de corrida para todos os ritmos.

Correr na Baía de Luanda ao início da noite revelou-se bem mais agradável do que fazê-lo durante o dia.

A começar pela temperatura que desce até cerca dos 20 graus. Bem como as ligeiras brisas que, quando não temos maré baixa, podem tornar-se realmente refrescantes.

Todo o tipo de gente percorre este passeio com cerca de 1,5 kms de cumprimento.

Diria mesmo que pode ser algo representativo das pessoas que hoje em dia vivem em Luanda. Desde de portugueses que se fazem ouvir pelo caminho, chineses que têm vindo a chegar em maior número a Angola, expatriados franceses e americanos que ostentam os seus ipod de forma ingénua, angolanos das mais diversas classes e raparigas simpáticas que nos dão algumas palavras de incentivo e coragem, sempre bem-vindas.

Pelo caminho também encontro alguns grupos de ginástica que, segundo me dizem, se juntam de espontaneamente e de forma regular.

Sente-se uma boa vibração entre as pessoas que por ali circulam. E o tempo passa depressa à conversa com meus companheiros.

O pior chega nos dias em que a maré está baixa. Como numa Sexta-feira em que a Baía estava com menos gente do que é costume e aproveitei para fazer um treino de maior velocidade para as pernas não se esquecerem.

O circuito tinha sido tomado por um cheiro absolutamente nauseabundo para o qual muito contribui os esgotos que devem ali desaguar sem qualquer tratamento.

A iluminação também era deficiente, resultado das obras que por ali vão começar, segundo dizem.

Ao acelerar numa recta e motivado por momentos antes me ter cruzado e saudar uma velha glória do atletismo português que treina regularmente na Baía, sinto um impacto em algo macio que acaba por rolar cerca de um metro para a minha frente e fugir para a minha direita.

Tinha acabado de abalroar uma ratazana que tinha saltado da Baía. Naturalmente não me preocupei com a condição do animal. Fui simplesmente tomado por um sentimento de repugnância que me fez correr ainda mais depressa.

Pensei que aquela seria a minha última corrida na Baía. Mas depois recordei-me que também no Estádio Universitário (onde treino a maior parte da vezes em Lisboa) também já me tinha cruzado ratazanas, cheira mal quando estão a fertilizar os campos e a iluminação à noite é igualmente deficiente.

Decidi dar nova oportunidade e continuei por ali a correr naquele dia e nos seguintes.

Um dia sei que este lugar vai ser melhor, tal é o potencial evidente deste local. Nessa altura vou-me rir daquilo que foi a Baía de Luanda, outrora em vias de abandono.

domingo, 25 de abril de 2010

Dank u Rotterdam!











Roterdão, Abril de 2010

KM 0. Chegado ao local de partida, sinto pela primeira vez a atmosfera absolutamente electrizante desta maratona. Junto à partida, uma grua ergue um senhor de idade avançada que canta uma música. Milhares acompanham-no com grande entusiasmo. Gostava de poder fazer o mesmo, mas toda a tensão do momento, bem como o facto de ser imperceptível o que se estava a cantar, acabam por me lançar num último retiro de introspecção. Como que percorro um "checklist" mental para ver se não me esqueci de nada. Desperto cada um dos músculos e peço-lhes lá no meu íntimo que não me falhem nas próximas horas.

Ouve-se o disparo de um canhão. É o sinal de partida e cerca de dez mil pessoas lançam-se em histórias de bravura e incerteza até final.

As avenidas principais junto à partida estão repletas de gente entusiasta e são disparadas centenas de fotografias de forma aleatória sobre todos os corredores que por ali passam.

Seguimos em direcção à Erasmus Bridge. Pelo meio encontro encontro a torcida Wikaboo que solta algumas palavras de incentivo. Vamos no primeiro quilómetro. A pulsação está alta para o ritmo em que estou a correr. Provavelmente resultado de emoções fortes no início da corrida.

As ruas continuam coloridas e barulhentas, cruzamo-nos com as primeiras bandas que tocam com a mesma energia que todos os atletas tinham por aqueles primeiros quilómetros.

Chegamos ao De Kuip, Estádio do Feyenoord. Conhecido também pela “Banheira de Roterdão”. Naquele estádio a Selecção de Portugal já foi muito feliz. Até o meu azarado Sporting conseguiu por lá ser feliz um dia na Taça UEFA. Pensei que pudesse ser um bom prenúncio para a viagem que estava a fazer.

Recordei-me que os primeiros dez quilómetros devem ser feitos de uma forma confortável. Instruções que são unânimes entre todos “misters”. E assim prossigo. Confortavelmente e a analisar com interesse cada detalhe deste novo cenário.

Alcançamos um bairro residencial. Pensava eu que seria uma parte do percurso menos interessante. Mas eia que começo a avistar centenas… milhares de pessoas nas ruas. Pessoas que abdicaram de umas horas extra de sono, ou conforto nos seus lares, para aplaudirem um bando de loucos predispostos a sofrer durante 42 quilómetros.

Cruzo-me com múltiplas manifestações populares! Pessoas mascaradas, erguendo no ar cartazes de incentivo aos corredores em geral ou a alguém em particular, cornetas, apitos, balões coloridos, pessoas que acompanham os corredores de bicicleta nas ciclovias paralelas à estrada agitando chocalhos de vacas. Enfim, um ambiente caótico e para o qual era impossível ficar indiferente. Momentos houve em que corri arrepiado não do frio que se fazia sentir mas da energia humana que por ali havia.

Perto da meia-maratona, percorro pedaços de estrada delimitados por centenas de pessoas apertadas entre si. Como que se estendessem uma passadeira que em momento algum é pisada por quem não esteja a transitar na maratona. Gritam palavras que são imperceptíveis. Há como que uma energia vibrante no ar que passa da assistência para mim. E acredito que para os outros corredores. Começo a ficar mal habituado com tanta manifestação de apoio e fico inquietado com a possibilidade de este não existir para além dos 30 quilómetros, ou seja, quando mais iria precisar dele.

Entre a assistência vejo pessoas de todas as raças e que devem representar diversos países. Essa miscelânea de gentes de todo o mundo é também característica da Holanda, conhecida por ser uma sociedade tolerante e progressista.

Crianças abeiravam-se da estrada e estendem as mãos para que os corredores os largassem um “high five” enquanto passavam. A alguns (não a todos porque eram muitos!) retribuo e obtenho em troca sorrisos que mais do que compensam alguma desconcentração momentânea.

Por volta dos 24 quilómetros estou lado a lado com um corredor que encontra a família que começa a manifestar-se ruidosamente a cerca de 100 metros de distância enquanto agitavam cartolinas gigantes ao verem o seu ídolo aproximar-se. A família do maratonista em questão bem poderia estar toda ali. Vi pessoas mais idosas, crianças e até o cão que, erguido no ar pela dona, teve direito a um leve cumprimento do dono que passou sem parar.

Penso que um cumprimento da cadela Rotweiller dos meus pais poderia ter sido desastroso naquele momento.

Estou numa velocidade estável. Sinto-me muito bem e confiante. Antes de regressar à parte norte de Roterdão, atravessando novamente a Erasmus Bridge, passo novamente pela torcida Wikaboo, identificada com uma grande bandeira portuguesa. É sempre um conforto ver caras conhecidas entre a assistência.

Aos 30 quilómetros tenho a ilusão de que estou perto. Mas lembro-me das palavras sábias do meu treinador que diz que, numa maratona, a “meia” só se atinge aos 32 quilómetros. Pois um profeta dos Classificados do Correio da Manhã não faria melhor prognóstico uma vez que, precisamente aos 32 quilómetros, o meu sistema começa a desligar-se lentamente, sem que nada pudesse fazer para o evitar. Tenho um último gel, mas sinto que ele poderá já vir tarde. Como que estou a ser atraído para um abismo e não há absolutamente nada que eu possa fazer para o evitar. Um avião que vai perdendo cada um dos seus motores e só poderá, neste caso, planar até ao final da corrida.

Restava-me lutar com todas as forças que me restavam, por respeito a todo o treino que fiz ao longo dos últimos meses.

Atravesso um longo e verdejante parque que já não consigo apreciar e o ruído das bandas que tocam pelo percurso começam a incomodar-me em vez de me motivar.
As pessoas junto aos passeios devem ter interpretado a minha expressão de quem estava a tentar galgar um enorme muralha que se tinha erguido à sua frente. Inclinam-se para a estrada e soltam algumas soltam gritos em inglês:

“Come On!!”
“It’s finished!”
“You’re almost there!”

Como que agradecendo a essas pessoas as minhas pernas reagem e a passada acelera por instantes. Mas estou esgotado.

Com os dois últimos quilómetros chega um tónico extra. Tenho a certeza que vou terminar. Não exactamente da maneira como tinha planeado, mas ainda assim com um primeiro tempo decente numa maratona e com a certeza que tenho condições para fazer mais e melhor.

Na recta da meta oiço Wikaboos gritarem pelo meu nome. Foi como voltar a sentir-me em casa. Mas foi impossível esboçar um sorriso para eles ou para as máquinas fotográficas que registavam a minha chegada. Porque já não havia energia para utilizar senão para transportar-me até à meta, andar alguns 20 metros e sentar-me junto a uma vedação onde fiquei alguns minutos a recuperar.

No entanto, durante todo aquele desconforto não me lembro, em momento algum, de me tentar convencer que esta seria a minha última maratona. Pelo contrário…

terça-feira, 13 de abril de 2010

La réconciliation










Paris, Abril de 2009

Maratona de Paris. Quilómetro 30. Em frente avisto a Torre Eiffel. Sinto-me bem fisicamente. Embora não estivesse perfeitamente convicto disso, ocorre-me a ideia de que, eventualmente, completar uma maratona poderia não ser uma tarefa tão dura. Ainda assim, para trás tinha ficado uma primeira parte absolutamente desastrosa, marcada por múltiplos acontecimentos não planeados.

Mas os quilómetros foram-se acumulando e partir de Trocadero comecei a sentir o cansaço físico e mental. Os níveis de ansiedade aumentam. Tento convencer-me que só faltam 10 quilómetros e que já fiz aquela distância múltiplas vezes e sem dificuldade. Mas nunca tinha os últimos 10 quilómetros de uma maratona. Para além disso, tudo aquilo que estava para além do quilómetro 30 era um imenso desconhecido para mim na altura.

Mas parte da energia que havia sido derramada nos quilómetros que para trás ficaram acabou por me ser parcialmente devolvida pelos parisienses que, provavelmente lendo a expressão de cansaço estampada no meu rosto, começaram a chamar ocasionalmente o meu nome. Aqui e ali ouvia-se um “Allez Milton!”

Algures no Bois de Boulogne. Sei que estou perto. Mas não consigo avistar a meta. Nem tão-pouco algum aglomerado de pessoas que me indiciem que o final está próximo. Cada quilómetro parece uma eternidade. Passo por tendas da Cruz Vermelha com filas de corredores junto da entrada. Procuram certamente algum alongamento ou massagem miraculosa que lhes permita chegar à meta.

Pelos relvados do bosque vêem-se voluntários (clandestinos) que oferecem massagens aos corredores e ainda me cruzo com bancas que parecem ter sido montadas espontaneamente para servir vinho de Bordéus e Cidra. Afinal é uma maratona em Paris, e há que terminar a prova com estilo. Naturalmente, passei a oferta. Só vejo árvores e lagos à volta. A meta na Avenue Foch só seria avistada a algumas centenas de metros do fim.

Termino a prova e sinto uma enorme sensação de alívio. Completei a minha primeira maratona. Procuro à minha volta algum conforto. Alguém do meu mundo para partilhar o que havia feito ou simplesmente lançar um desabafo depois de um enorme desgaste físico e mental. Acabei por encontrá-la de vestido preto e branco junto ao Arco do Triunfo.

Paris, Dezembro de 2009

De regresso a Paris pela primeira vez após a Maratona de Abril.
Na bagagem um desejo enorme de me reconciliar com aqueles que foram, sem dúvida, e até à altura, os 10 quilómetros mais duros da minha vida.

Precisava relativizar aquele percurso. Para isso queria percorrê-lo em perfeitas condições físicas e sentir o contraste absoluto para com aquela manhã de Abril.
E assim foi. Acordei mais cedo num Domingo e apanhei o metro em direcção a Trocadero. Iniciei o treino em frente Torre Eiffel e prossegui junto ao Sena na “Rive Droite”.

A quase ausência de circulação de veículos e pessoas, bem como a inexistência de qualquer loja aberta denunciavam mais um calmo Domingo parisiense.

Ao contrário da luminosa de manhã de Abril, hoje o dia está frio e corro sob um manto de nuvens cinzentas.

Não me cruzo com nenhum corredor. Somente com os bateaux-mouches que deslizam pelo Sena.

Começo a mover-me para o interior da cidade deixando o rio nas minhas costas. Ao chegar a um bairro tenho a primeira sensação nítida de "déjà-vu". Sei que por ali alguém chamou o meu nome. Alguém que não me conhecia e não me devia absolutamente nada, não deixou de me apoiar.

Entusiasmado com a precisão com que as memórias vão sendo reavivadas através dos dos estímulos sensoriais que vou recebendo ao longo do treino, sigo numa passada mais viva em direcção ao Bois de Boulogne.

Pelo caminho passo pelo Parque dos Príncipes e faço um desvio para um pequeno bairro. Em todas as janelas estão afixados papéis coloridos e por momentos penso que todos aqueles apartamentos estão à venda. Mas tratava-se de uma manifestação coordenada de parisienses locais contra a demolição de um pequeno estádio que aparentemente serve as escolas das redondezas.

Prossigo e o próximo ponto de passagem são os estádios de Roland Garros. Aqui é possível ver alguns tenistas matutinos. Imagino a atmosfera incrível que deve este lugar deve ter aquando da realização do torneio de ténis mundialmente famoso.
Às portas do Bois do Boulogne sinto-me tranquilo e a aproveitar da melhor forma o treino. A absorver cada detalhe que me havia escapado em Abril. Começo a percorrer trilhos enlameados. Provavelmente resultado de uma última noite húmida. Cruzo-me com alguns corredores. Alguns gesticulam levemente com a cabeça deixando uma saudação. Como que um código de boas maneiras que existe entre muitos corredores.

Deslizo até aos lagos do bosque e meio perdido encontro a descida para a Avenue Foch onde terminava a maratona.

De rosto completamente transformado, a Avenue Foch estava despida de corredores e de uma pesada logística de bancas móveis. No lugar de milhares de corredores em êxtase por terem terminado a maratona ou outros a recuperar das suas dores, hoje a avenida está calma e tranquila e conseguem-se ouvir pássaros nos jardins laterais. Subo em direcção ao Arco do Triunfo. Mas hoje não está lá a miúda de vestido preto e branco.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O MoMA e o Central Park



Nova Iorque, Novembro de 2009

O Museum of Modern Art de Nova Iorque (MoMA) é uma referência incontornável dos apreciadores de arte moderna. Do conjunto das obras da sua colecção constam quadros de Monet, Picasso, Van Gogh, Matisse, Salvador Dali, Chagal, Magritte, Klimt.

Mediante tão rica e diversificada colecção, todo o tipo de apreciador de arte conflui para este espaço. Com eles devem igualmente chegar múltiplas interpretações das obras expostas. Quadros como o “Les Demoiselles d’Avignon” de Picasso ou a “A Persistência da Memória” de Dali são certamente susceptíveis de gerar análises aprofundadas, científicas ou meramente pessoais de todo o género.

Pelos corredores, vêem-se pessoas que se rendem às interpretações que constam do audio guide. Outras, visivelmente mais estudiosas, observam as obras de diversas perspectivas. Muitos deixam-se simplesmente mergulhar nas imagens. Múltiplas formas de apreciar e retirar prazer a partir de uma mesma obra.

A alguns quarteirões de distância o Central Park. Por entre trilhos e estradas que serpenteiam entre suaves colinas povoadas por árvores, lagos, campos de treino cruzamo-nos com múltiplos corredores e "joggers".

E se no MoMa é possível encontrar todo o tipo de obras de arte moderna, bem como as mais diversas interpretações sobre as mesmas, também no Central Park encontramos, sem exagero, todo o tipo de corredores.

Uma semana após a maratona de Nova Iorque, já foi possível cruzarmo-nos com corredores duros que deslizam pelo Central Park a velocidades respeitáveis, com uma passada firme e confiante, levantando atrás si a terra enlameada que resultou da chuva e humidade dos últimos dias.

É possível ver igualmente ver corredores seniores (pelo menos setenta anos!) que fazem o seu treino a uma passada curta, lenta, mas precisa como um relógio suíço. E pensamos em como seria bom conseguir chegar àquela etapa da vida com força, saúde e ainda muita vontade de correr num parque daqueles.

As corredoras do tipo Prada e Dolce & Gabbana. Muito vistas também. Possivelmente retiradas de uma episódio de “O Sexo e a Cidade”. Impecáveis no outfit. Correm de óculos escuros e de boné cap com cabelo apanhado em “rabo de cavalo”. Algumas com o IPhone em mãos. Correm de forma graciosa e elegante. Parece até que nem transpiram enquanto percorrem os caminhos do parque.

Os que passeiam os cães. Normalmente Golden Retrievers que seguem, sempre à mesma distância e de forma entusiástica (ou não!) os seus donos.

À semelhança do que acontece no MoMa, é a diversidade que confere uma riqueza extraordinária ao Central Park. Enquanto no primeiro espaço é possível ver uma multiplicidade de obras e apreciadores das mesmas, o Central Park proporciona um conjunto de imagens dignas de constar nos mais belos postais e um conjunto de pessoas que interpretam e usufruem do parque ao seu próprio estilo e ritmo. Sem estas, de certo que os 341 hectares de paisagens não estariam cheios de vitalidade e de uma energia absolutamente contagiante.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Kuala Lumpur Melting Pot



Kuala Lumpur, Julho de 2009

Embora possa parecer uma ideia um pouco "Socrática", acredito que uma das formas de sentir o "pulso" de uma cidade pode muito bem passar por uma corrida.
São 17 horas em Kuala Lumpur. O mercúrio subia até aos 30º e a humidade rondava os 80%.

As condições não são de todo perfeitas para uma corrida. Tanto mais porque o "jet lag" (- 7 horas) ainda se fazia sentir.

O ginásio do hotel estava muito bem equipado e refrigerado mas não me seduziu de todo, pois a curiosidade relativamente ao mundo exterior era enorme!

O hotel tinha a vantagem de estar em frente à versão malaia das Twin Towers, as Torres Petronas. Duas torres construídas em ferro e vidro. Absolutamente deslumbrantes e imponentes. Mesmo para aqueles que não se deixam impressionar por obras megalómanas.

Estas torres representam o crescimento e poderio económico da Malásia sustentado, em parte, pelo petróleo e o gás.

Na Malásia, a indústria do petróleo e de outros minérios terá servido para financiar a construção de infra-estruturas, o desenvolvimento económico-social e tecnológico, factos que poderão ter contribuído para uma maior estabilidade social, pelo menos aos olhos de quem passou por aqui um "par de dias".

E este até é um país que tinha tudo para ser conflituoso no seu interior por ser um verdadeiro "melting pot", onde pessoas das mais diversas nacionalidades e religiões convivem lado a lado, mesmo que em outras partes do globo nutram um profundo ódio.

A população da Malásia é constituída em 50% por malaios (e dentro destes a população é maioritariamente muçulmana), 24% de chineses, 7% de indianos. O remanescente é uma lista infindável de outras populações indígenas, eurasiáticos, árabes e outros não-malaios.

Esta impressão ficou reconfirmada durante uma corrida de aproximadamente 8 kms em torno de um circuito reduzido de 1,3 kms, dentro de um parque entre o hotel e as Torres Petronas.

Como é costume neste tipo de corridas, prescindo de todos os acessórios que me impeçam de absorver o que se passa em meu redor. E foi de facto incrível perceber como num pequeno espaço conseguimos cruzar-nos com chineses, japoneses e outros asiáticos cuja origem é imperceptível no imediato, bem como famílias indianas com mulheres vestidas nos seus coloridos "saris", famílias árabes identificadas muitas vezes por mulheres envergando os típicos véus e "burkas". E turistas americanos, australianos, europeus...

Ao invés dos sons vindos de um IPOD, a banda sonora desta corrida acabou por ser uma oração em árabe que escutava através do megafone de uma mesquita junto ao parque.

Pelo percurso ainda me cruzei com uma rapariga muçulmana que treina como eu, mas que não dispensa um véu que esconde os seus cabelos. Um acto de coragem atendendo às condições climatéricas que descrevi.

Todos os turistas não resistem em contemplar as enormes torres que rasgam o céu na procura do melhor ângulo para a foto perfeita. Nesses momentos acabam por "invadir" involuntariamente, ou não, a pista destinada aos corredores.

Mas logo que se aproxima um corredor, um funcionário do parque desimpede a pista de corrida, abortando um conjunto de fotografias que estavam prontas a ser disparadas. Tudo em nome da livre circulação das pessoas que por ali treinam. Muitos pormenores não são deixados ao acaso na organização deste país.

Toda uma mescla de culturas, gentes e sons conseguem juntar-se naquele pequeno perímetro. Só faltavam mesmo os cheiros das comidas de rua em China Town.
 
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