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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Zé Dias

Zé Dias, novo Wikaboo

Zé Dias e o seu primo Ivo.

Novembro de 2011

Dia de prova numa típica manhã africana. Calor e humidade potenciada por uma noite de pouco descanso.


Algures junto a um “musseque” da Samba sou alcançado por um atleta que vai sendo aplaudido por algumas dezenas de pessoas que se juntam nas margens.

Ficamos lado a lado. Mas a cada ajuntamento popular, mais aplausos e ele retribui através da generosidade de passadas mais aceleradas. Fico para trás. A cerca de 500 metros alcanço-o e desafiamo-nos para um sprint final. Deslizamos a grande velocidade para o fim. Cansados mas com o sorriso de quem cumpriu mais um desafio, selamos este desafio com um aperto de mão. Fico a saber o seu nome: Zé Dias. Corredor do Comité Paraolímpico Angolano.

O Dias corre por gosto. Mas também por necessidade. Naquele dia a prova não tinha qualquer prémio monetário e guardava as suas pernas para outros voos.

Não é pago pelo Comité que representa. Está desempregado. E depende de alguns prémios monetários pagos por algumas provas.

Sabia que me iria cruzar com o Dias de novo. E assim foi. Mantivemos contacto. E deu-se início à missão de equipar o Dias para que tenha as condições necessárias para atingir os seus objectivos.

A bondade, fraternidade, gosto de correr e vontade de conhecer novos limites são características que o Dias e o Wikaboo partilham, pelo que nada melhor do que esta camisola para começar.

Fiquem atentos aos Dias que se seguem!

E o nosso muito obrigado pelas dezenas de t-shirts até agora doadas pelo Wikaboo!

Adiram à página no Facebook "T-shirts com bolachas"

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Maratona de Nova Iorque - de Staten Island a Brooklyn


Hino entoado por uma oficial do NYFD. Ao lado Michael Bloomberg, Mayor de NY (foto da organização)
 
Entrada para a Ponte de Verrazano Narrows (foto da organização)


Coro de Gospel de uma Igreja Evangélica de Brooklyn (foto da organização)


Apoio em Brooklyn (foto da organização)

6 de Novembro de 2011

8.50 da manhã em Staten Island. O primeiro de três conjuntos de corredores marcha em direcção à linha de partida. Para além dos anfitriões norte americanos, num raio de 5 metros vejo mexicanos, italianos, brasileiros e noruegueses.
Olhares tensos que certamente não serão um exclusivo dos debutantes na distância. Como me foi dito um dia por um dos corredores que viria a brilhar nesta Maratona – António Sousa, vencedor da categoria de Veteranos e 22º classificado na Geral –, os 42,195 kms escondem sempre alguma incerteza. Algo que não controlamos, ainda que tenhamos trabalhado arduamente nos meses anteriores.

Alongam-se os últimos músculos, espalham-se os últimos cremes anti-inflamatórios, rezam-se as últimas preces e percorrem-se listas de “do’s” e “dont’s” pela enésima vez.

Ao lado, filas de autocarros de topo aberto são populados por crianças entusiastas que pedem as roupas que protegem os corredores daquela manhã fria de Outono, no âmbito do programa de recolha de roupa para os sem-abrigo de Nova Iorque. Lembro-me das “t-shirts coloridas” que tenho para distribuir em Luanda. A minha última peça de roupa extra é arremessada para o autocarro. A descoberto fica a minha t-shirt Wikaboo que orgulhosamente envergo e que me acompanhou em centenas de quilómetros de treinos em manhãs quentes e húmidas de Angola.

O speaker pede que se faça silêncio e se tirem os chapéus. Vai ser entoado o hino dos EUA por um membro de uma corporação de bombeiros de Nova Iorque, os quais sofreram baixas massivas no 11 de Setembro. Sem excepção, a multidão de corredores acede ao pedido e faz-se silêncio. Algumas mãos são levadas ao peito. Eu aproveito para erguer a cabeça e deixar-me iluminar pelo sol que vai rompendo o céu azul e ameniza a manhã fria. É o meu último momento de concentração. Chegou o momento de me redescobrir física e mentalmente.

A marcar o tiro de partida, canta-se o clássico “New York, New York” do Frank Sinatra, para delírio dos milhares de corredores:

“Start spreading the news
I’m leaving today
I want to be a part of it
New York, New York...”

As primeiras centenas de metros são percorridas numa subida íngreme já em plena Ponte de Verrazano Narrows. Alguns param para tirar fotos. Outros, como eu, tentam rapidamente entrar na passada planeada, a qual consegui atingir após o primeiro quilómetro.

No final da ponte uma placa oficial diz “Welcome to Brooklyn USA”. Um dos corredores repete em voz alta esta frase para os primeiros populares que se aglomeravam junto à saída da ponte. Em uníssono estes respondem em êxtase e com orgulho “Yeahhh!!!”.

Esta primeira manifestação marcou o início de uma das manifestações populares mais impressionantes que tive oportunidade de viver.

Li algures na semana anterior uma frase:

“If you are losing faith in human nature, go and watch a marathon” – Kathrine Switzer

Eu acrescentaria, que se veja uma maratona em geral e em particular a Maratona de Nova Iorque em Brooklyn.

47.438 corredores de 118 nacionalidades invadiam as principais artérias de Brooklyn. As margens estão completamente preenchidas formando um corredor humano por entre o qual percorremos até Queens. Difícil vislumbrar uma clareira por entre esta moldura impressionante.

Bandeiras ao alto dão um colorido especial ao nosso percurso e simbolizam a multiplicidade de nacionalidades que povoam aquele distrito nova-iorquino. O apoio ultrapassa largamente as tradicionais palmas. E são constantemente lançadas ao ar palavras de apoio em inglês e espanhol. Centenas de placas dão-nos um precioso incentivo: “Go runners!”, “Do some epic shit!”, “Don’t stop, people are watching!”.

A organização espalhou dezenas de pontos de animação pelo percurso. Mas Brooklyn quis exceder as expectativas. E abriram-se portas e janelas de onde saiam colunas com músicas do mundo. DJ’s que improvisaram pequenos pontos de exibição. Alguns aspirantes a estrelas pop com trejeitos de Jeniffer Lopez e Jay Z soltam versos improvisados de incentivo. Coros de Gospel de igrejas evangélicas celebram as suas missas dominicais nas ruas por onde passávamos transmitindo uma energia vibrante. Nos palcos da organização alinham grupos de rock, folk, country e capoeira.

Tudo é arrepiante, vibrante, perfeito. Afinal a maratona ainda vai nos primeiros quilómetros, o corpo ainda não nos pede clemência e à volta vive-se uma incrível demonstração de humanidade a que ninguém pode ficar indiferente.

Pessoas de todas as raças, credos, países e orientações correm e apoiam com um solo objectivo, chegar ao Central Park. E não posso deixar de pensar que Maratona de Nova Iorque poderia bem representar uma metáfora de um Mundo Utópico. Onde toda a Humanidade luta e apoia-se mutuamente em nome de objectivos comuns, sem que com isso cada individuo tenha que abdicar da sua identidade.

domingo, 7 de novembro de 2010

Memórias de Lisboa

Partida em plena Ponte Vasco da Gama
Parque das Nações
Ponte Vasco da Gama
Praça 25 de Abril

Uma sociedade desactivada

Cintura do Porto de Lisboa
Estação de comboios de Santa Apolónia
Panteão Nacional
O Rio Tejo e o Cristo Rei
Pavilhão de Portugal

Lisboa, Setembro de 2010
Domingo de Sol. Cerca de 17 mil pessoas estendem-se ao longo dos últimos quilómetros da ponte Vasco da Gama com um destino comum: Lisboa e o Parque das Nações.

Os caminhos podem ser percorridos de forma ligeira e digna de uma manhã domingueira (mini-maratona de 6 quilómetros), ou por caminhos mais longos e tortuosos (meia-maratona).

Junto à partida dão-se os inevitáveis encontros entre corredores que parecem partilhar estes desafios há anos. Abraços e gargalhadas. As piadas competitivas. No ar sentem-se os odores de pomadas analgésicas de quem quer esquecer momentaneamente alguma dor. O som de uma hélice de um helicóptero arranca os últimos acenos dos corredores para o ar. A energia humana mistura-se com um som distorcido e ensurdecedor projectado por colunas espalhadas pela ponte. O ambiente é caótico e vibrante.

Início de mais uma prova na minha cidade. Não existem segredos em grande parte das ruas de Lisboa e muitos dos seus cantos guardam memórias de rostos ou circunstâncias particulares.

E assim foi. Desde logo na partida onde há dois anos iniciei a minha primeira meia-maratona mergulhado num mar de incertezas e angústias e ao som da “La Revancha del Tango” dos Gotan Project.

Após dois quilómetros sobre a Ponte Vasco da Gama alcançamos as margens de uma nova Lisboa que começou a ser erguida há cerca de 15 anos, quando o país ainda se julgava próspero. Anteriormente este espaço era ocupado por unidades industriais falidas e suas respectivas lixeiras. Os solos contaminados da zona criavam barreiras intransponíveis entre os Lisboetas e o Rio Tejo. Hoje vive aqui uma nova cidade contrastante com o charme da Lisboa antiga do centro.

Prosseguimos por entre prédios altos de formas contemporâneas até chegarmos ao quilómetro 5 e o primeiro grande aglomerado de público. Ouvem-se aplausos que nos enchem de energia. As nossas pernas parecem ficar mais leves e as passadas alargam-se, como que retribuindo o gesto de um público anónimo.

Seguimos paralelamente ao Tejo junto ao Porto de Lisboa. Edifícios de linhas rectas e provavelmente erguidos durante os anos 60. Muitos ainda ostentam nomes de sociedades e cooperativas entretanto desaparecidas.

O Sol brilha com maior intensidade e põe a descoberto os prédios que envelhecem à medida que caminhamos para ocidente.

O Porto de Lisboa parece estar calmo e tranquilo. Com poucos cargueiros atracados, gruas paradas e centenas de contentores coloridos de todo o mundo acumulados.

Esta zona portuária parece ser um local inóspito e com poucos motivos de interesse. Mas enquanto percorro estes quilómetros sou tomado por múltiplas memórias. Como um beijo nocturno à beira rio, um jantar de amigos, um amanhecer numa varanda de discoteca, um "brunch" com vista para um cruzeiro, um comboio que apanhei sem destino, a Amália, os cacilheiros que cruzam as margens do Rio Tejo, o cheiro das sardinhas assadas dos restaurantes no sopé da Colina de São Vicente e às portas de Alfama.

O ponto de retorno estava marcado junto ao Jardim do Tabaco. Por essa altura os pensamentos retrospectivos foram interrompidos por um atleta debutante na distância. Parecia procurar alguém com quem desabafar, embora me parecesse muito confortável na sua corrida.

A prova estava a ser feita a um ritmo elevado, pelo que uma conversa animada não estava nos meus planos. Mas durante quatro quilómetros conversámos sobre as suas dúvidas e as nossas experiências de corrida. O mercúrio aumentava e o cansaço foi-se apoderando de mim. A conversa tornou-se então mais intervalada e terminou com ele a incentivar-me à medida que se ia afastando.

Mas a meta junto ao Pavilhão de Portugal já não estava longe. O público volta a aparecer, as últimas reservas de energia são activadas e o último quilómetro é feito a uma velocidade acima da média.

O aproximar do final da prova faz-me recordar o momento em que terminei a minha primeira meia-maratona há dois anos neste preciso local. O avistar da meta e a certeza que iria concluir aquele meu primeiro desafio no mundo da corrida inundou-me de alegria e com uma sensação de dever cumprido. Pensei então que teria alcançado a meta. Sem nunca perceber que estava ali mesmo, em frente ao Pavilhão de Portugal, a começar uma corrida que não mais iria ter fim.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Corro Peste, corro Buda














Budapeste, Setembro de 2010

Manhã de Primavera no Leste Europeu. Milhares de pessoas começam a aglomerar-se no Parque da Cidade para a 25ª Meia-Maratona de Budapeste.


Aqui, como em qualquer parte do mundo, uma prova de corrida é sinónimo de festa. Lado a lado na partida alinham homens e mulheres, profissionais e amadores das mais diversas nacionalidades, raças e religiões. Todos partem ao mesmo sinal sonoro e têm, teoricamente, as mesmas possibilidades de ganhar. O resto é determinado pelo talento e pelo trabalho. Como deveria ser em tudo na vida.

O início da prova é antecedido pela actuação de um grupo de samba que parece ser composto exclusivamente por húngaros. Como que por contágio, os últimos exercícios de aquecimento e alongamento em meu redor passam a ser pautados por ritmos de percussão brasileira. Sinais da globalização de culturas.

10 horas e o tiro de partida. Era importante iniciar a prova a um ritmo vivo para evitar uma corrida atrás do prejuízo mais adiante.

E assim foi. Motivado por dezenas de furiosas lebres contorno a Praça Hősök em direcção à charmosa Avenida Andrássy, classificada em 2002 como Património da Humanidade pela UNESCO.

Deslizamos pela avenida formada por mansões neo-renascentistas e edifícios de fachadas deslumbrantes. Mais adiante a magnífica Ópera de Budapeste.

Em perfeita harmonia com esta primeira fase do percurso, a organização instalou cinco palcos improvisados onde pianistas interpretavam clássicos de Ferenc Erkel, Gustav Mahler e Franz Liszt.

Recordei-me dos tempos em que ouvia os Nocturnos de Chopin interpretados pela Maria João Pires durante treinos de recuperação. Aí o objectivo era manter um passo lento e regenerador. Hoje precisava de um passo frenético e que me levasse a ultrapassar anteriores máximos.

Após descer a Avenida Andrássy e uma rua seguinte, vislumbro o Rio Danúbio e a fantástica Ponte das Correntes (Széchenyi Lánchíd).

Pelo caminho não se avistam muitos populares nas ruas a aplaudir quem por ali passa no pelotão. Talvez muitos recuperem ainda das noites loucas nas caves de Budapeste, muito notabilizadas pelo clássico dos Mão Morta. Pois se assim for, estão perdoados os habitantes de Budapeste!

Já do lado de Buda, a prova prossegue junto às margens do Danúbio. Neste momento estávamos em perfeita sintonia pois ambos corríamos em direcção ao Mar Negro com a mesma determinação e confiança, como se nada nos pudesse parar.

O Sol aperta e o mercúrio sobe. Mas uma temporada de treinos em África e no implacável Verão português fez com que estivesse preparado para mais esta dificuldade.

Por volta do quilómetro 9,5 o primeiro ponto de retorno. Passámos a correr na direcção oposta à corrente do rio. E a Natureza como que deixou de colaborar connosco, pois senti de imediato um vento intenso contra o meu corpo.

Penso nos cerca de 7 quilómetros de duelo que teria que travar contra o Danúbio e começo a duvidar que este seria o dia para quebrar novas barreiras.

Mas o quilómetro 10 chegou com uma melhor marca pessoal da distância e um renovar de confiança.

Passo junto à magnífica e imponente fachada estilo “art nouveau” do Hotel Gellért onde estava hospedado. Inevitável suspirar pelas massagens e banhos de águas termais (ricas em cálcio e magnésio) que me esperavam da parte da tarde. Mas sei que muito tenho que sofrer até lá.

Um coro de aplausos espera-nos à entrada da Ponte da Liberdade (Szabadság híd), a mais bela de Budapeste. Toda construída em ferro e exemplarmente conservada.

Já de regresso a Peste, tempo para um reforço de frutos silvestres à base de cafeína e guaraná antes de enfrentar um novo “round” contra o vento que corria a favor do Danúbio.

Nas margens do Danúbio aproximo-me de um grupo que corria a um ritmo superior para abrigar-me do vento. Enquanto aguentei fui atrás deles. Éramos um grupo de cinco e corremos silenciosamente alinhados a um passo sincronizado. Confiávamos no comandante do pelotão e a corrida quase se tornou mecânica. Consciente da sua responsabilidade, sempre que havia um desnível no solo, o líder do pelotão fazia um gesto apontando para o obstáculo. Este era imediatamente reproduzido por todos sem excepção até à cauda do grupo. A corrida tem destes momentos únicos de solidariedade. Ali estava um líder anónimo a dar o peito ao vento em nome do seu pelotão de desconhecidos e ainda encontrava forças para alertar para as trajectórias que os demais deveriam seguir.

Novo ponto de retorno ao quilómetro 16 e com ele esperava obter uma trégua em direcção à meta final. É certo que o vento deixou de exercer a sua força contra nós, mas também não demonstrou a sua solidariedade dando-nos um merecido apoio.

O coração bate forte. Mas não sei quanto ao certo desde que me libertei do medidor de frequência cardíaca há dois meses. Não tenho dores. Não me sinto esgotado. Faço contas ao tempo perdido nos últimos quilómetros e concluo que estou muito próximo do objectivo para o qual treinei.

Deixo o Danúbio definitivamente para trás enquanto subo a cidade em pequenos troços em direcção ao Parque. As paisagens perderam interesse pois entramos em zonas residenciais, percorremos viadutos e zonas de obras. Mas a motivação é crescente pois já “cheira” a meta. E com ela regressam os aplausos que crescem em quantidade e volume até final.

Sei que vou conseguir e mentalmente percorro alguns dos sítios por onde treinei para aqui estar e todos aqueles que me ajudaram nos últimos meses.

Da Baía à Ilha de Luanda. Da Cidade do México, passado por Acapulco e Mérida. Do Parque da Paz à Costa da Caparica.

A plateia saúda todos os atletas. Muitas das palavras de apoio são proferidas em magyar e portanto imperceptíveis. O “speaker” vai dizendo banalidades em inglês sobre os países de origem dos atletas que vão passando a meta: “Italy! Pizza! Macaroni!”

A minha satisfação interior mais do que compensa a luta e o cansaço acumulado nos últimos 21,097 quilómetros. Sensação de objectivo cumprido e o conforto de saber que ainda não conheço os meus limites nas corridas em particular, mas acima de tudo na vida em geral.

domingo, 25 de abril de 2010

Dank u Rotterdam!











Roterdão, Abril de 2010

KM 0. Chegado ao local de partida, sinto pela primeira vez a atmosfera absolutamente electrizante desta maratona. Junto à partida, uma grua ergue um senhor de idade avançada que canta uma música. Milhares acompanham-no com grande entusiasmo. Gostava de poder fazer o mesmo, mas toda a tensão do momento, bem como o facto de ser imperceptível o que se estava a cantar, acabam por me lançar num último retiro de introspecção. Como que percorro um "checklist" mental para ver se não me esqueci de nada. Desperto cada um dos músculos e peço-lhes lá no meu íntimo que não me falhem nas próximas horas.

Ouve-se o disparo de um canhão. É o sinal de partida e cerca de dez mil pessoas lançam-se em histórias de bravura e incerteza até final.

As avenidas principais junto à partida estão repletas de gente entusiasta e são disparadas centenas de fotografias de forma aleatória sobre todos os corredores que por ali passam.

Seguimos em direcção à Erasmus Bridge. Pelo meio encontro encontro a torcida Wikaboo que solta algumas palavras de incentivo. Vamos no primeiro quilómetro. A pulsação está alta para o ritmo em que estou a correr. Provavelmente resultado de emoções fortes no início da corrida.

As ruas continuam coloridas e barulhentas, cruzamo-nos com as primeiras bandas que tocam com a mesma energia que todos os atletas tinham por aqueles primeiros quilómetros.

Chegamos ao De Kuip, Estádio do Feyenoord. Conhecido também pela “Banheira de Roterdão”. Naquele estádio a Selecção de Portugal já foi muito feliz. Até o meu azarado Sporting conseguiu por lá ser feliz um dia na Taça UEFA. Pensei que pudesse ser um bom prenúncio para a viagem que estava a fazer.

Recordei-me que os primeiros dez quilómetros devem ser feitos de uma forma confortável. Instruções que são unânimes entre todos “misters”. E assim prossigo. Confortavelmente e a analisar com interesse cada detalhe deste novo cenário.

Alcançamos um bairro residencial. Pensava eu que seria uma parte do percurso menos interessante. Mas eia que começo a avistar centenas… milhares de pessoas nas ruas. Pessoas que abdicaram de umas horas extra de sono, ou conforto nos seus lares, para aplaudirem um bando de loucos predispostos a sofrer durante 42 quilómetros.

Cruzo-me com múltiplas manifestações populares! Pessoas mascaradas, erguendo no ar cartazes de incentivo aos corredores em geral ou a alguém em particular, cornetas, apitos, balões coloridos, pessoas que acompanham os corredores de bicicleta nas ciclovias paralelas à estrada agitando chocalhos de vacas. Enfim, um ambiente caótico e para o qual era impossível ficar indiferente. Momentos houve em que corri arrepiado não do frio que se fazia sentir mas da energia humana que por ali havia.

Perto da meia-maratona, percorro pedaços de estrada delimitados por centenas de pessoas apertadas entre si. Como que se estendessem uma passadeira que em momento algum é pisada por quem não esteja a transitar na maratona. Gritam palavras que são imperceptíveis. Há como que uma energia vibrante no ar que passa da assistência para mim. E acredito que para os outros corredores. Começo a ficar mal habituado com tanta manifestação de apoio e fico inquietado com a possibilidade de este não existir para além dos 30 quilómetros, ou seja, quando mais iria precisar dele.

Entre a assistência vejo pessoas de todas as raças e que devem representar diversos países. Essa miscelânea de gentes de todo o mundo é também característica da Holanda, conhecida por ser uma sociedade tolerante e progressista.

Crianças abeiravam-se da estrada e estendem as mãos para que os corredores os largassem um “high five” enquanto passavam. A alguns (não a todos porque eram muitos!) retribuo e obtenho em troca sorrisos que mais do que compensam alguma desconcentração momentânea.

Por volta dos 24 quilómetros estou lado a lado com um corredor que encontra a família que começa a manifestar-se ruidosamente a cerca de 100 metros de distância enquanto agitavam cartolinas gigantes ao verem o seu ídolo aproximar-se. A família do maratonista em questão bem poderia estar toda ali. Vi pessoas mais idosas, crianças e até o cão que, erguido no ar pela dona, teve direito a um leve cumprimento do dono que passou sem parar.

Penso que um cumprimento da cadela Rotweiller dos meus pais poderia ter sido desastroso naquele momento.

Estou numa velocidade estável. Sinto-me muito bem e confiante. Antes de regressar à parte norte de Roterdão, atravessando novamente a Erasmus Bridge, passo novamente pela torcida Wikaboo, identificada com uma grande bandeira portuguesa. É sempre um conforto ver caras conhecidas entre a assistência.

Aos 30 quilómetros tenho a ilusão de que estou perto. Mas lembro-me das palavras sábias do meu treinador que diz que, numa maratona, a “meia” só se atinge aos 32 quilómetros. Pois um profeta dos Classificados do Correio da Manhã não faria melhor prognóstico uma vez que, precisamente aos 32 quilómetros, o meu sistema começa a desligar-se lentamente, sem que nada pudesse fazer para o evitar. Tenho um último gel, mas sinto que ele poderá já vir tarde. Como que estou a ser atraído para um abismo e não há absolutamente nada que eu possa fazer para o evitar. Um avião que vai perdendo cada um dos seus motores e só poderá, neste caso, planar até ao final da corrida.

Restava-me lutar com todas as forças que me restavam, por respeito a todo o treino que fiz ao longo dos últimos meses.

Atravesso um longo e verdejante parque que já não consigo apreciar e o ruído das bandas que tocam pelo percurso começam a incomodar-me em vez de me motivar.
As pessoas junto aos passeios devem ter interpretado a minha expressão de quem estava a tentar galgar um enorme muralha que se tinha erguido à sua frente. Inclinam-se para a estrada e soltam algumas soltam gritos em inglês:

“Come On!!”
“It’s finished!”
“You’re almost there!”

Como que agradecendo a essas pessoas as minhas pernas reagem e a passada acelera por instantes. Mas estou esgotado.

Com os dois últimos quilómetros chega um tónico extra. Tenho a certeza que vou terminar. Não exactamente da maneira como tinha planeado, mas ainda assim com um primeiro tempo decente numa maratona e com a certeza que tenho condições para fazer mais e melhor.

Na recta da meta oiço Wikaboos gritarem pelo meu nome. Foi como voltar a sentir-me em casa. Mas foi impossível esboçar um sorriso para eles ou para as máquinas fotográficas que registavam a minha chegada. Porque já não havia energia para utilizar senão para transportar-me até à meta, andar alguns 20 metros e sentar-me junto a uma vedação onde fiquei alguns minutos a recuperar.

No entanto, durante todo aquele desconforto não me lembro, em momento algum, de me tentar convencer que esta seria a minha última maratona. Pelo contrário…

terça-feira, 13 de abril de 2010

La réconciliation










Paris, Abril de 2009

Maratona de Paris. Quilómetro 30. Em frente avisto a Torre Eiffel. Sinto-me bem fisicamente. Embora não estivesse perfeitamente convicto disso, ocorre-me a ideia de que, eventualmente, completar uma maratona poderia não ser uma tarefa tão dura. Ainda assim, para trás tinha ficado uma primeira parte absolutamente desastrosa, marcada por múltiplos acontecimentos não planeados.

Mas os quilómetros foram-se acumulando e partir de Trocadero comecei a sentir o cansaço físico e mental. Os níveis de ansiedade aumentam. Tento convencer-me que só faltam 10 quilómetros e que já fiz aquela distância múltiplas vezes e sem dificuldade. Mas nunca tinha os últimos 10 quilómetros de uma maratona. Para além disso, tudo aquilo que estava para além do quilómetro 30 era um imenso desconhecido para mim na altura.

Mas parte da energia que havia sido derramada nos quilómetros que para trás ficaram acabou por me ser parcialmente devolvida pelos parisienses que, provavelmente lendo a expressão de cansaço estampada no meu rosto, começaram a chamar ocasionalmente o meu nome. Aqui e ali ouvia-se um “Allez Milton!”

Algures no Bois de Boulogne. Sei que estou perto. Mas não consigo avistar a meta. Nem tão-pouco algum aglomerado de pessoas que me indiciem que o final está próximo. Cada quilómetro parece uma eternidade. Passo por tendas da Cruz Vermelha com filas de corredores junto da entrada. Procuram certamente algum alongamento ou massagem miraculosa que lhes permita chegar à meta.

Pelos relvados do bosque vêem-se voluntários (clandestinos) que oferecem massagens aos corredores e ainda me cruzo com bancas que parecem ter sido montadas espontaneamente para servir vinho de Bordéus e Cidra. Afinal é uma maratona em Paris, e há que terminar a prova com estilo. Naturalmente, passei a oferta. Só vejo árvores e lagos à volta. A meta na Avenue Foch só seria avistada a algumas centenas de metros do fim.

Termino a prova e sinto uma enorme sensação de alívio. Completei a minha primeira maratona. Procuro à minha volta algum conforto. Alguém do meu mundo para partilhar o que havia feito ou simplesmente lançar um desabafo depois de um enorme desgaste físico e mental. Acabei por encontrá-la de vestido preto e branco junto ao Arco do Triunfo.

Paris, Dezembro de 2009

De regresso a Paris pela primeira vez após a Maratona de Abril.
Na bagagem um desejo enorme de me reconciliar com aqueles que foram, sem dúvida, e até à altura, os 10 quilómetros mais duros da minha vida.

Precisava relativizar aquele percurso. Para isso queria percorrê-lo em perfeitas condições físicas e sentir o contraste absoluto para com aquela manhã de Abril.
E assim foi. Acordei mais cedo num Domingo e apanhei o metro em direcção a Trocadero. Iniciei o treino em frente Torre Eiffel e prossegui junto ao Sena na “Rive Droite”.

A quase ausência de circulação de veículos e pessoas, bem como a inexistência de qualquer loja aberta denunciavam mais um calmo Domingo parisiense.

Ao contrário da luminosa de manhã de Abril, hoje o dia está frio e corro sob um manto de nuvens cinzentas.

Não me cruzo com nenhum corredor. Somente com os bateaux-mouches que deslizam pelo Sena.

Começo a mover-me para o interior da cidade deixando o rio nas minhas costas. Ao chegar a um bairro tenho a primeira sensação nítida de "déjà-vu". Sei que por ali alguém chamou o meu nome. Alguém que não me conhecia e não me devia absolutamente nada, não deixou de me apoiar.

Entusiasmado com a precisão com que as memórias vão sendo reavivadas através dos dos estímulos sensoriais que vou recebendo ao longo do treino, sigo numa passada mais viva em direcção ao Bois de Boulogne.

Pelo caminho passo pelo Parque dos Príncipes e faço um desvio para um pequeno bairro. Em todas as janelas estão afixados papéis coloridos e por momentos penso que todos aqueles apartamentos estão à venda. Mas tratava-se de uma manifestação coordenada de parisienses locais contra a demolição de um pequeno estádio que aparentemente serve as escolas das redondezas.

Prossigo e o próximo ponto de passagem são os estádios de Roland Garros. Aqui é possível ver alguns tenistas matutinos. Imagino a atmosfera incrível que deve este lugar deve ter aquando da realização do torneio de ténis mundialmente famoso.
Às portas do Bois do Boulogne sinto-me tranquilo e a aproveitar da melhor forma o treino. A absorver cada detalhe que me havia escapado em Abril. Começo a percorrer trilhos enlameados. Provavelmente resultado de uma última noite húmida. Cruzo-me com alguns corredores. Alguns gesticulam levemente com a cabeça deixando uma saudação. Como que um código de boas maneiras que existe entre muitos corredores.

Deslizo até aos lagos do bosque e meio perdido encontro a descida para a Avenue Foch onde terminava a maratona.

De rosto completamente transformado, a Avenue Foch estava despida de corredores e de uma pesada logística de bancas móveis. No lugar de milhares de corredores em êxtase por terem terminado a maratona ou outros a recuperar das suas dores, hoje a avenida está calma e tranquila e conseguem-se ouvir pássaros nos jardins laterais. Subo em direcção ao Arco do Triunfo. Mas hoje não está lá a miúda de vestido preto e branco.
 
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